sábado, 7 de agosto de 2010

Além do fato: credo do otário (por José Murilo de Carvalho)

Mais um pleito eleitoral se avizinha. Novos deputados, governadores e senadores serão eleitos. Um(a) novo(a) presidente(a) será eleito(a). Pensando nisso, trago algumas provocações de um autor bastante conhecido entre os historiadores que se ocupam do estudo da sociedade brasileira. Seguindo o seu conselho, que tal sermos um pouco mais "otários"?



1. Creio na existência do interesse coletivo, na virtude política e na justiça social. Eu sou otário.

2. Creio que o dinheiro do contribuinte é público e é administrado pelo governo, mas não pertence ao governo. Eu sou otário.

3. Creio no direito dos contribuintes de se recusarem a pagar impostos quando o dinheiro público for objeto de malversação pelo governo. Eu sou otário.

4. Creio que os políticos são delegados dos eleitores e têm que prestar contas de seus atos e dar transparência a suas ações. Eu sou otário.

5. Creio no direito dos eleitores de revogar o mandato de representantes infiéis e corruptos, mesmo na duração do mandato. Eu sou otário.

6. Creio que os funcionários públicos de todos os escalões são servidores dos contribuintes e têm que pautar seu comportamento pelo uso honesto do dinheiro público, pela eficiência e pela civilidade. Eu sou otário.

7. Creio que tanto assalta o patrimônio do cidadão o contribuinte que sonega imposto quanto o Estado que cobra impostos escorchantes. Eu sou otário.

8. Creio que são tão corruptos o político e o funcionário público que cobram propina quanto o empresário que oferece propina em troca de favores. Eu sou otário.

9. Creio que a impunidade é a madrinha da corrupção e que a prisão especial para portadores de diplomas universitários viola o princípio da igualdade perante a lei. Eu sou otário.

10. Creio que é mais corrupto o político que compra voto abusando do poder econômico do que o eleitor que vende voto por necessidade econômica. Eu sou otário.

11. Creio que é menos criminoso o camelô que vende produto contrabandeado para sobreviver do que o empresário que subfatura, sobrefatura, lava dinheiro e sonega imposto para se enriquecer. Eu sou otário.

12. Creio que a República é o regime político que se define pela preocupação com a coisa pública e que o clientelismo, o nepotismo, o patrimonialismo, o mensalão são a corrupção da República. Eu sou otário.

Otários do Brasil, uni-vos!

(Texto publicado no Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, em 18 de agosto de 2005).

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Sobre a incineração, o descaso e a irresponsabilidade histórica

Em 08 de junho, nosso Senado deu mostras de sua despreocupação com a história de nosso país. Segundo o que diz o artigo nº 967 do Projeto de Lei nº 166, que institui um novo Código de Processo Civil, "os autos poderão ser eliminados por incineração, destruição mecânica ou por outro meio adequado, findo o prazo de cinco anos, contado da data do arquivamento, publicando-se previamente no órgão oficial e em jornal local, onde houver, aviso aos interessados, com o prazo de um mês".

O que os "interessados" poderão fazer no prazo de um mês, se pensarmos em toda a burocratização do Estado? Apenas ver as cinzas sendo levadas pelo vento.

O segundo parágrafo do mesmo artigo versa que, "se, a juízo da autoridade competente, houver nos autos documentos de valor histórico, serão estes recolhidos ao arquivo público". Quem será a pessoa que avaliará o valor histórico da papelada? Um Juiz? Ou, em outros termos: que documento não tem valor histórico? 

Assim como tudo o que é especificamente humano, o campo historiográfico está em permanente transformação. Refinam-se os métodos, focam-se melhor as lentes, tentam-se outros viéses de análise. Novos objetos e temas são incorporados ao métier do historiador. Mas, é elementar: a história não se faz sem fontes.

Ao ler essa triste notícia, e a mobilização dos historiadores para frear esse crime, não pude deixar de encontrar semelhanças com os percalços do meu trabalho de campo.

Acredito que um dos momentos mais tristes na vida de um historiador ocorre quando ele tem a certeza de que determinadas fontes foram sumariamente eliminadas. Pois então: isso aconteceu com esta que vos tecla, há cerca de três semanas atrás. Ao vasculhar o acervo da instituição (pública, é importante frisar) que representa o cerne de análise da minha dissertação de mestrado, encontro duas singelas "Atas de Registro de Incineração".

Eis a prova empírica do crime:

"Aos doze dias do mês de setembro de mil novecentos e noventa e cinco às 14h25min, na churrasqueira e no pátio da insituição foi realizada incineração dos seguintes documentos: correspondência recebida e expedida de mil novecentos e sessenta e três a mil novecentos e oitenta e nove num total de vinte e sete caixas; fichas razão de mil novecentos e setenta e três a mil novecentos e oitenta num total de oito caixas; movimento de caixa de mil novecentos e oitenta e quatro a mil novecentos e oitenta e seis num total de três caixas; prestação de contas de mil novecentos e setenta e nove a mil novecentos e oitenta e nove num total de 15 caixas; documentos bancários de mil novecentos e setenta e quatro a mil novecentos e oitenta num total de sete caixas; material antigo em duas caixas; relatórios de setores, menos o geral, de mil novecentos e sessenta e quatro a mil novecentos e oitenta e nove, num total de oito caixas (...)".

A ata termina dessa forma, sem nomear responsáveis, sem assinaturas. Sem explicações. Não acredito que o incêndio tenha sido realizado com o objetivo de "queima de arquivo", a fim de esconder evidências ou escamotear ações escusas da instituição.

O provável motivo para a existência dessas "Atas Pirotécnicas" deve ser algo tão relevante quando a falta de espaço. O despreparo dos que trabalham do "arquivo morto" da instituição. O "não saber o que fazer com essa pilha de papéis velhos".

Ou seja: pura irresponsabilidade, falta de consciência histórica, falta de vontade política. Problemas que assolam o Estado brasileiro de ponta à ponta, de cima à baixo, de 500 poucos anos para cá.

Mas, voltando ao fato que inspirou a escrita dessas linhas: quais seriam as conseqüências de uma resolução como essa? Nas palavras de Durval Muniz de Albuquerque, atual presidente da Associação Nacional de História (ANPUH):

"Aprovada a atual proposta, estão novamente em risco milhares de processos cíveis: um prejuízo incalculável para a história do país, que já arca com perdas graves na área da Justiça do Trabalho (...). Além de grave agressão à História, a proposta também fere direitos constitucionais de acesso à informação e de produção de prova jurídica. (...). Não é possível escrever a História sem documentação e esta não pode continuar sendo concebida pelo Estado brasileiro e por nossos representantes no Congresso Nacional como um estorvo, como um lixo para o qual se devem definir mecanismos de destruição periódica. Toda documentação tem valor histórico, todo documento interessa ao historiador, a concepção de que existem documentos que são em si mesmo interessantes para a história e outras não é, há muito tempo, uma visão ultrapassada em nossa área de atuação. Não podemos aceitar que fique a cargo de um juiz, que não tem formação na área de arquivística ou da historiografia, definir se um documento merece ser arquivado ou não, tem valor histórico ou não".

É importante também lembrar que, como também o fez o comunicado oficial da ANPUH, a partir do momento em que nosso Senado aprovar essa lei, restaura-se os postulados do artigo 1.215 do Código de Processo Civil promulgado em 1973, que autorizava essa aniquilação completa de documentos. Naquela vez, após ampla mobilização, houve a suspensão da vigência do artigo (Lei 6.246).

Antes de mais nada, é importante lembrar: 1973. Final do governo do ditador Emílio Garrastazu Médici. Golpe (covarde) de Estado no Chile. Eram tempos sombrios...

Mas, e hoje?

Finalizo este texto com uma dica. Aproveitando os ares democráticos que nos envolvem - ou deveriam nos envolver - sugiro uma olhadinha no abaixo-assinado proposto pela ANPUH. Está em nossas mãos, mais uma vez, conter mais um atentado à memória de nosso país.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

"Budapeste", romance de Chico Buarque (Companhia das Letras, 2003).

Seria mais fácil fazer uma espécie de resenha da obra. Porém, temo que o enredo perderia seu encanto se tentasse ser explicado de uma forma linear. Decidi, então, apenas lançar alguns trechos que - por um motivo ou outro - chamaram a minha atenção.




“...de cada país eu levo assim uma graça, um suvenir volátil” (p. 7).
.

“Viajei 30 horas com o pensamento em branco” (p. 22).
.

“...estava atento a cada reticência, a cada hesitação, à frase interrompida, à palavra partida ao meio como fruta que eu pudesse espiar por dentro” (p. 35).
.

“Zelosa dos meus escritos, só ela os sabia ler, mirando-se no espelho, e de noite apagava o que de dia fora escrito, para que eu jamais cessasse de escrever meu livro nela” (p. 40).
.

“Palavras recém-escritas, com a mesma rapidez com que haviam sido escritas, iam deixando de me pertencer” (p. 40).
.

“Branca, branca, branca, eu dizia, bela, bela, bela, era pobre o meu vocabulário” (p. 45).
.

“Mas duas pessoas não se equilibram muito tempo lado a lado, cada qual com o seu silêncio; um dos silêncios acaba sugando o outro, e foi quando me voltei para ela, que de mim não se apercebia. Segui observando seu silêncio, decerto mais profundo do que o meu, e de algum modo mais silencioso. E assim permanecemos outra meia hora, ela dentro de si e eu imerso no silêncio dela, tentando ler seus pensamentos depressa, antes que viessem palavras húngaras” (p. 61).
.

“...seus olhos fugiram do assunto” (p. 65).
.

“...minha cabeça já alçava vôo, meus pensamentos vinham em verso” (p. 165).
.


Um aviso necessário aos navegantes, leitores e cinéfilos: leiam o livro primeiro. O filme (vide imagem acima) é muito bem produzido, os atores são ótimos, mas tem coisas que só a leitura atenta não deixa escapar. E, às vezes, nem ela...

Ah, antes que me esqueça: com esse filme aprendi que "Feijoada completa" em húngaro é algo deveras exótico. E também que escritores sempre podem vir a ser surpreendidos pelos fãs mais inusitados...

sexta-feira, 28 de maio de 2010

O império do consumo - Eduardo Galeano

Minha admiração por esse escritor uruguaio é imensa. E, mesmo que não esteja mais conseguindo me dedicar às suas leituras, minha querida amiga Andréia me brindou hoje com um de seus textos mais incisivamente realista. Por que "tirar um pouco as vendas" nunca faz mal a ninguém...


O IMPÉRIO DO CONSUMO
Eduardo Galeano

O sistema fala em nome de todos, dirige a todos as suas ordens imperiosas de consumo, difunde entre todos a febre compradora; mas sem remédio: para quase todos esta aventura começa e termina no écran do televisor. A maioria, que se endivida para ter coisas, termina por ter nada mais que dívidas para pagar dívidas as quais geram novas dívidas, e acaba a consumir fantasias que por vezes materializa delinquindo.

Os donos do mundo usam o mundo como se fosse descartável: uma mercadoria de vida efêmera, que se esgota como se esgotam, pouco depois de nascer, as imagens disparadas pela metralhadora da televisão e as modas e os ídolos que a publicidade lança, sem tréguas, no mercado. Mas para que outro mundo vamos mudar-nos?

A explosão do consumo no mundo actual faz mais ruído do que todas as guerras e provoca mais alvoroço do que todos os carnavais. Como diz um velho provérbio turco: quem bebe por conta, emborracha-se o dobro. O carrossel aturde e confunde o olhar; esta grande bebedeira universal parece não ter limites no tempo nem no espaço. Mas a cultura de consumo soa muito, tal como o tambor, porque está vazia. E na hora da verdade, quando o estrépito cessa e acaba a festa, o borracho acorda, só, acompanhado pela sua sombra e pelos pratos partidos que deve pagar. A expansão da procura choca com as fronteiras que lhe impõe o mesmo sistema que a gera. O sistema necessita de mercados cada vez mais abertos e mais amplos, como os pulmões necessitam o ar, e ao mesmo tempo necessitam que andem pelo chão, como acontece, os preços das matérias-primas e da força humana de trabalho.

O direito ao desperdício, privilégio de poucos, diz ser a liberdade de todos. Diz-me quanto consomes e te direi quanto vales. Esta civilização não deixa dormir as flores, nem as galinhas, nem as pessoas. Nas estufas, as flores são submetidas a luz contínua, para que cresçam mais depressa. Nas fábricas de ovos, as galinhas também estão proibidas de ter a noite. E as pessoas estão condenadas à insónia, pela ansiedade de comprar e pela angústia de pagar. Este modo de vida não é muito bom para as pessoas, mas é muito bom para a indústria farmacêutica. Os EUA consomem a metade dos sedativos, ansiolíticos e demais drogas químicas que se vendem legalmente no mundo, e mais da metade das drogas proibidas que se vendem ilegalmente, o que não é pouca coisa se se considerar que os EUA têm apenas cinco por cento da população mundial.

"Gente infeliz os que vivem a comparar-se", lamenta uma mulher no bairro do Buceo, em Montevideo. A dor de já não ser, que outrora cantou o tango, abriu passagem à vergonha de não ter. Um homem pobre é um pobre homem. "Quando não tens nada, pensas que não vales nada", diz um rapaz no bairro Villa Fiorito, de Buenos Aires. E outro comprova, na cidade dominicana de San Francisco de Macorís: "Meus irmãos trabalham para as marcas. Vivem comprando etiquetas e vivem suando em bicas para pagar as prestações".

Invisível violência do mercado: a diversidade é inimiga da rentabilidade e a uniformidade manda. A produção em série, em escala gigantesca, impõe em todo lado as suas pautas obrigatórias de consumo. Esta ditadura da uniformização obrigatória é mais devastadora que qualquer ditadura do partido único: impõe, no mundo inteiro, um modo de vida que reproduz os seres humanos como fotocópias do consumidor exemplar.

O consumidor exemplar é o homem quieto. Esta civilização, que confunde a quantidade com a qualidade, confunde a gordura com a boa alimentação. Segundo a revista científica The Lancet, na última década a "obesidade severa" aumentou quase 30% entre a população jovem dos países mais desenvolvidos. Entre as crianças norte-americanas, a obesidade aumentou uns 40% nos últimos 16 anos, segundo a investigação recente do Centro de Ciências da Saúde da Universidade do Colorado. O país que inventou as comidas e bebidas light, os diet food e os alimentos fat free tem a maior quantidade de gordos do mundo. O consumidor exemplar só sai do automóvel par trabalhar e para ver televisão. Sentado perante o pequeno écran, passa quatro horas diárias a devorar comida de plástico.

Triunfa o lixo disfarçado de comida: esta indústria está a conquistar os paladares do mundo e a deixar em farrapos as tradições da cozinha local. Os costumes do bom comer, que vêem de longe, têm, em alguns países, milhares de anos de refinamento e diversidade, são um património colectivo que de algum modo está nos fogões de todos e não só na mesa dos ricos. Essas tradições, esses sinais de identidade cultural, essas festas da vida, estão a ser espezinhadas, de modo fulminante, pela imposição do saber químico e único: a globalização do hamburguer, a ditadura do fast food. A plastificação da comida à escala mundial, obra da McDonald's, Burger King e outras fábricas, viola com êxito o direito à autodeterminação da cozinha: direito sagrado, porque na boca a alma tem uma das suas portas.

O campeonato mundial de futebol de 98 confirmou-nos, entre outras coisas, que o cartão MasterCard tonifica os músculos, que a Coca-Cola brinda eterna juventude e o menu do MacDonald's não pode faltar na barriga de um bom atleta. O imenso exército de McDonald's dispara hamburguers às bocas das crianças e dos adultos no planeta inteiro. O arco duplo desse M serviu de estandarte durante a recente conquista dos países do Leste da Europa. As filas diante do McDonald's de Moscovo, inaugurado em 1990 com fanfarras, simbolizaram a vitória do ocidente com tanta eloquência quanto o desmoronamento do Muro de Berlim.

Um sinal dos tempos: esta empresa, que encarna as virtudes do mundo livre, nega aos seus empregados a liberdade de filiar-se a qualquer sindicato. A McDonald's viola, assim, um direito legalmente consagrado nos muitos países onde opera. Em 1997, alguns trabalhadores, membros disso que a empresa chama a Macfamília, tentaram sindicalizar-se num restaurante de Montreal, no Canadá: o restaurante fechou. Mas no 98, outros empregados da McDonald's, numa pequena cidade próxima a Vancouver, alcançaram essa conquista, digna do Livro Guinness.

As massas consumidoras recebem ordens num idioma universal: a publicidade conseguiu o que o esperanto quis e não pôde. Qualquer um entende, em qualquer lugar, as mensagens que o televisor transmite. No último quarto de século, os gastos em publicidade duplicaram no mundo. Graças a ela, as crianças pobres tomam cada vez mis Coca-Cola e cada vez menos leite, e o tempo de lazer vai-se tornando tempo de consumo obrigatório. Tempo livre, tempo prisioneiro: as casas muito pobres não têm cama, mas têm televisor e o televisor tem a palavra. Comprados a prazo, esse animalejo prova a vocação democrática do progresso: não escuta ninguém, mas fala para todos. Pobres e ricos conhecem, assim, as virtudes dos automóveis último modelo, e pobres e ricos inteiram-se das vantajosas taxas de juro que este ou aquele banco oferece. Os peritos sabem converter as mercadorias em conjuntos mágicos contra a solidão. As coisas têm atributos humanos: acariciam, acompanham, compreendem, ajudam, o perfume te beija e o automóvel é o amigo que nunca falha. A cultura do consumo fez da solidão o mais lucrativo dos mercados. As angústias enchem-se atulhando-se de coisas, ou sonhando fazê-lo. E as coisas não só podem abraçar: elas também podem ser símbolos de ascensão social, salvo-condutos para atravessar as alfândegas da sociedade de classes, chaves que abrem as portas proibidas. Quanto mais exclusivas, melhor: as coisas te escolhem e te salvam do anonimato multitudinário. A publicidade não informa acerca do produto que vende, ou raras vezes o faz. Isso é o que menos importa. A sua função primordial consiste em compensar frustrações e alimentar fantasias: Em quem o senhor quer converter-se comprando esta loção de fazer a barba? O criminólogo Anthony Platt observou que os delitos da rua não são apenas fruto da pobreza extrema. Também são fruto da ética individualista. A obsessão social do êxito, diz Platt, incide decisivamente sobre a apropriação ilegal das coisas. Sempre ouvi dizer que o dinheiro não produz a felicidade, mas qualquer espectador pobre de TV tem motivos de sobra para acreditar que o dinheiro produz algo tão parecido que a diferença é assunto para especialistas.

Segundo o historiador Eric Hobsbawm, o século XX pôs fim a sete mil anos de vida humana centrada na agricultura desde que apareceram as primeiras culturas, em fins do paleolítico. A população mundial urbaniza-se, os camponeses fazem-se cidadãos. Na América Latina temos campos sem ninguém e enormes formigueiros urbanos: as maiores cidades do mundo e as mais injustas. Expulsos pela agricultura moderna de exportação, e pela erosão das suas terras, os camponeses invadem os subúrbios. Eles acreditam que Deus está em toda parte, mas por experiência sabem que atende nas grandes urbes. As cidades prometem trabalho, prosperidade, um futuro para os filhos. Nos campos, os que esperam vêem passar a vida e morrem a bocejar; nas cidades, a vida ocorre, e chama. Apinhados em tugúrios, a primeira coisa que descobrem os recém chegados é que o trabalho falta e os braços sobram. Enquanto nascia o século XIV, frei Giordano da Rivalto pronunciou em Florença um elogio das cidades. Disse que as cidades cresciam "porque as pessoas têm o gosto de juntar-se". Juntar-se, encontrar-se. Agora, quem se encontra com quem? Encontra-se a esperança com a realidade? O desejo encontra-se com o mundo? E as pessoas encontram-se com as pessoas? Se as relações humanas foram reduzidas a relações entre coisas, quanta gente se encontra com as coisas? O mundo inteiro tende a converter-se num grande écran de televisão, onde as coisas se olham mas não se tocam. As mercadorias em oferta invadem e privatizam os espaços públicos. As estações de auto-carros e de comboios, que até há pouco eram espaços de encontro entre pessoas, estão agora a converter-se em espaços de exibição comercial.

O shopping center, ou shopping mall, vitrina de todas as vitrinas, impõe a sua presença avassaladora. As multidões acorrem, em peregrinação, a este templo maior das missas do consumo. A maioria dos devotos contempla, em êxtase, as coisas que os seus bolsos não podem pagar, enquanto a minoria compradora submete-se ao bombardeio da oferta incessante e extenuante. A multidão, que sobe e baixa pelas escadas mecânicas, viaja pelo mundo: os manequins vestem como em Milão ou Paris e as máquinas soam como em Chicago, e para ver e ouvir não é preciso pagar bilhete. Os turistas vindos das povoações do interior, ou das cidades que ainda não mereceram estas bênçãos da felicidade moderna, posam para a foto, junto às marcas internacionais mais famosas, como antes posavam junto à estátua do grande homem na praça. Beatriz Solano observou que os habitantes dos bairros suburbanos vão ao center, ao shopping center, como antes iam ao centro. O tradicional passeio do fim de semana no centro da cidade tende a ser substituído pela excursão a estes centros urbanos. Lavados, passados e penteados, vestidos com as suas melhores roupas, os visitantes vêm a uma festa onde não são convidados, mas podem ser observadores. Famílias inteiras empreendem a viagem na cápsula espacial que percorre o universo do consumo, onde a estética do mercado desenhou uma paisagem alucinante de modelos, marcas e etiquetas. A cultura do consumo, cultura do efémero, condena tudo ao desuso mediático. Tudo muda ao ritmo vertiginoso da moda, posta ao serviço da necessidade vender. As coisas envelhecem num piscar de olhos, para serem substituídas por outras coisas de vida fugaz. Hoje a única coisa que permanece é a insegurança, as mercadorias, fabricadas para não durar, resultam ser voláteis como o capital que as financia e o trabalho que as gera. O dinheiro voa à velocidade da luz: ontem estava ali, hoje está aqui, amanhã, quem sabe, e todo trabalhador é um desempregado em potencial. Paradoxalmente, os shopping centers, reinos do fugaz, oferecem com o máximo êxito a ilusão da segurança. Eles resistem fora do tempo, sem idade e sem raiz, sem noite e sem dia e sem memória, e existem fora do espaço, para além das turbulências da perigosa realidade do mundo.

Os donos do mundo usam o mundo como se fosse descartável: uma mercadoria de vida efémera, que se esgota como esgotam, pouco depois de nascer, as imagens que dispara a metralhadora da televisão e as modas e os ídolos que a publicidade lança, sem tréguas, no mercado. Mas a que outro mundo vamos nos mudar? Estamos todos obrigados a acreditar no conto de que Deus vendeu o planeta a umas quantas empresas, porque estando de mau humor decidiu privatizar o universo? A sociedade de consumo é uma armadilha caça-bobos. Os que têm a alavanca simulam ignorá-lo, mas qualquer um que tenha olhos na cara pode ver que a grande maioria das pessoas consome pouco, pouquinho e nada, necessariamente, para garantir a existência da pouca natureza que nos resta. A injustiça social não é um erro a corrigir, nem um defeito a superar: é uma necessidade essencial. Não há natureza capaz de alimentar um shopping center do tamanho do planeta.

O original encontra-se em:
www.resumenlatinoamericano.org , nº 2199

Este artigo encontra-se em:
http://www.patrialatina.com.br/colunaconteudo.php?idprog=7d6044e95a16761171b130dcb476a43e&cod=1474

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Tempos de nostalgia


"Falsos retratos, pedaços de memória. São outros os fatos, mudou a história. O tamanho das coisas, o prédio gigante. Pequenos sobrados, antigo mirante. Meu mundo, tão grande no pensamento, menor a cada momento. Cidade miniatura. Perfume que me faz olhar pra trás" 
("Cidade miniatura", Márcio Faraco & Milton Nascimento)

domingo, 9 de maio de 2010

Da teoria ao humor

Ou, como diria o saudoso Barão de Itararé, "anistia é um ato pelo qual o governo resolve perdoar generosamente as injustiças e crimes que ele mesmo cometeu".

Amnésia comandada

A recente decisão Superior Tribunal Federal (STF), que manteve inalterada a Lei da Anistia de 1979, nos leva necessariamente à pensar sobre as questões que envolvem a memória, o esquecimento e o perdão.

Segundo Paul Ricouer*, a anistia figura como uma das modalidades dos "abusos do esquecimento". Seria uma forma de "esquecimento institucional", utilizada desde a Idade Antiga, que objetiva combater delitos cometidos por ambas as partes em um período de sedição. Seu projeto confesso: a paz cívica entre os cidadãos.

Porém, sua proximidade semântica e fonética com a amnésia, conformaria um pacto secreto com a denegação (negação) da memória. Teria o efeito de apagar os fatos da memória, afirmando que "nada ocorreu". Portanto, essa forma de "amnésia comandada" leva consigo um abuso do esquecimento na medida em que
"[...] a memória privada e coletiva seria privada da salutar crise de identidade que possibilita uma reapropriação lúcida do passado e de sua carga traumática" (RICOUER, 2007, p. 462).
O autor continua afirmando nesse sentido que a anistia só deveria ser usada como uma forma de 'terapia emergencial'; como um signo de utilidade, não de verdade.

A fronteira que separa a anistia da amnésia poderia ser preservada a partir de um trabalho consciente da memória (e, falando psicanaliticamente, de um trabalho de luto), norteado pelo espírito do perdão.

Os que ainda votam contra essas mudanças assentam seus argumentos na idéia de que o Brasil optou pela "concórdia"; que, por ser uma sociedade avançada, optou pelo 'perdão'. Uma sociedade que luta contra seus inimigos com as mesmas armas, clamam eles, direciona-se ao fracasso.

Porém, repensar/rediscutir/rever a Lei de Anistia dos fins da ditadura civil-militar brasileira é, antes de qualquer outra coisa, pensar sobre um passado forçadamente esquecido. Forçadamente marcado pelo esquecimento. Esquecimento que é institucional, que se enraíza no político. Esquecimento que ainda não significa perdão. 

*RICOUER, Paul. O esquecimento comandado: a anistia. In: A memória, a  história, o esquecimento. Campinas: Editora da Unicamp, 2007, p. 459-462.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

León Gieco - De igual a igual

Vivendo um momento de intensas trocas culturais internacionais (vide a fundação da Embaixada do Mercosul em Down Town, habitada por três rapazes matutos ...y otras cositas más...), aproveito para deixar por estas linhas uma das muitas belas canções cantadas por essas bandas, encharcada pela história latino-americana. Tá, eu confesso: sou uma fã incontrolável do Gieco também =)


De igual a igual  
(León Gieco y Carlos Núñez)

Soy bolita en Italia,
soy colombo en Nueva York,
soy sudaca por España
y paragua de Asunción

Español en Argentina,
alemán en Salvador,
un francés se fue pa' Chile,
japonés en Ecuador

El mundo está amueblado
con maderas del Brasil
y hay grandes agujeros
en la selva misionera

Europa no recuerda
de los barcos que mandó
Gente herida por la guerra
esta tierra la salvó

Si me pedís que vuelva otra vez donde nací
yo pido que tu empresa se vaya de mi país
Y así será de igual a igual
Y así será de igual a igual

Tico, nica, el boricua,
arjo, mejo, el panameño
hacen cola en la Embajada
para conseguir un sueño

En tanto el gran ladrón,
lleno de antecedentes,
si lo para Inmigración
pide por el presidente

Los llamados ilegales
que no tienen documentos
son desesperanzados
sin trabajo y sin aliento

Ilegales son los que
dejaron ir a Pinochet
Inglaterra se jactaba
de su honor y de su ley

domingo, 4 de abril de 2010


"Aquilo que celebramos como acontecimentos fundadores são essencialmente atos violentos legitimados posteriormente por um estado de direito precário"

(Paul Ricouer, "A memória, a história, o esquecimento", 2007, p. 92).

sábado, 13 de março de 2010

Como na Argentina (Luis Fernando Veríssimo)

Talvez esse texto já tenha sido bastante divulgado. Talvez, os que convivem comigo já o tenham lido. Porém, em sintonia com os questionamentos que minhas postagens anteriores podem vir a suscitar, é um texto ainda necessário. Triste é indagar por quanto tempo mais teremos de lembrar (e conviver) com esses episódios. O século XXI já nos deu mostras concretas de que "mais do mesmo" está - e vai continuar - acontecendo.

À guisa de explicação:  as palavras que seguem, escritas pelo nosso brilhante Veríssimo foram publicadas no Jornal Zero Hora, em 04 de novembro de 1982. Na época, coisas "estranhas" estavam povoando as águas das costas gaúchas. Corpos que pareciam ter criado guelras disputavam lugar com os peixes e outros pequeninos seres aquáticos. A versão oficial? Um navio, vindo do oriente, havia afundado. E, como já acontece desde o Titanic, algumas pessoas encontraram em  seu destino o afogamento. Ok, desastres acontecem, não é? Uma fatalidade... Porém, dias se passavam, e mais corpos apareciam. Alguns, em lugares bastante distantes do suposto acidente. E, algo incrível: os cadáveres pareciam não ter qualquer característica fenotípica que os assemelhasse aos povos do oriente.

Como isso poderia ter acontecido? As águas gaúchas teriam tal poder de decomposição a ponto de modificar essas marcas corporais? Pois, se estivessemos em um livro do Gabriel Garcia Marquez, talvez sim. Mas o realismo fantástico, infelizmente, só povoa as linhas da Macondo ficcional.

Mas, o que seriam todos esses corpos que apareciam, do nada, em nossas calmas águas? Let's think about it: o ano era 1982. O Brasil, nesse momento, era governado por aquele presidente bonitão, lembra? Aquele que não gostava do cheiro do povo, que preferia morrer à receber um salário mínimo. Aquele dos óculos super "estilosos", esportista, bonachão. Isso, ele mesmo: Generalíssimo Figueiredo. (ironia modo [ON]) Estávamos vivendo ainda sob o jugo dos saudosos militares que, desde 1964, colocaram nossa promissora nação de volta aos trilhos da História, através da Revolução Gloriosa de 1º de abril. (ironia modo [OFF])

Nossos vizinhos fronteiriços, coincidentemente (ou não?), também estavam com seus percalços autoritários. O Uruguai, desde 1973. A Argentina, 1976. E, por aqui, em rítmo de "abertura" lenta, gradual e blábláblá ouvíamos falar dos terrores perpretados em terras hermanas. Aburdos, caros leitores! Verdadeiros absurdos!!!

E eis que alguns lunáticos conspiradores (daqueles que vêem OVNI's no sítio da vovó), insistiam em pensar na hipótese de que esses corpitchos teriam vindo boiando desde lá, até as terras gaudérias. Mas, tchê? Outros, ainda mais desvairadamente insanos, ousavam pensar que os tempos do saudoso Médici (esse, não tão bonachão como o Generalíssimo supracitado) teriam retornado. Seriam esses corpos resultados de sessões de tortura? "Deuslivre"! Não, no Brasil não!

E, assim, surge a crônica que vocês lerão abaixo. Nunca ninguém revelou o que realmente pode ter acontecido nesse episódio. As conjecturas continuam soando apenas como algo passado, que ficou nas páginas amareladas do periódico gaúcho.

Tirem suas próprias conclusões, caros leitores. Mas, lembrem-se: mais cedo ou mais tarde, cobraremos explicações!

---------------------

Não é fácil eliminar um corpo. Uma vida é fácil. Uma vida é cada vez mais fácil. Mas fica o corpo, como o lixo. Um dos problemas desta civilização: o que fazer com o próprio lixo. As carcaças de automóveis, as latas de cerveja, os restos de matanças. O corpo bóia. O corpo vai dar na praia. O corpo brota da terra, como na Argentina. O que fazer com ele? O corpo é como o lixo atômico. Fica vivo. O corpo é como o plástico. Não desintegra. A carne apodrece e ficam os ossos. Forno crematório não resolve. Ficam os dentes, ficam as cinzas. Fica a memória. Ficam as mães. Como na Argentina.

Seria fácil se o corpo se extinguisse com a vida. A vida é um nada, acaba-se com a vida com um botão ou com uma agulha. Mas fica o corpo, como um estorvo. Os desaparecidos não desaparecem. Sempre há alguém sobrando, sempre há alguém cobrando. As valas comuns não são de confiança. A terra não aceita cadáver sem documentos. Os corpos são devolvidos, mais cedo ou mais tarde. A terra é protocolar, não quer ninguém antes do tempo. A terra não quer ser cúmplice. Tapar os corpos com escombros não adianta. Sempre sobra um pé, ou uma mãe. Sempre há um bisbilhoteiro, sempre há um inconformado. Sempre há um vivo.

Os corpos brotam do chão, como na Argentina. Corpo não é reciclável. Corpo não é reduzível. Dá para dissolver os corpos em ácido, mas não haveria ácido que chegasse para os assassinados do século. Valas mais fundas, mais escombros, nada adianta. Sempre sobra um dedo acusando. O corpo é como o nosso passado, não existe mais e não vai embora. Tentaram largar o corpo no meio do mar e não deu certo. O corpo bóia. O corpo volta. Tentaram forjar o protocolo – foi suicídio, estava fugindo – e o corpo desmentia tudo. O corpo incomoda. O corpo faz muito silêncio. Consciência não é biodegradável. Memórias não apodrecem. Ficam os dentes.

Os meios de acabar com a vida sofisticam-se. Mas ainda não resolveram como acabar com o lixo. Os corpos brotam da terra, como na Argentina. Mais cedo ou mais tarde os mortos brotam da terra.

(Também publicado em: VERÍSSIMO, Luís Fernando. A mãe do Freud.  L&PM Editores Ltda: Porto Alegre, 1985)

sexta-feira, 12 de março de 2010

Desaparecidos (ainda)

 

O Brasil ainda não pagou suas dívidas com o passado. Muitas pessoas que sumiram nas mãos do terror de Estado durante décadas de chumbo da nossa história recente ainda não foram encontradas, sequer sabe-se como foram mortas, ou como "desapareceram com elas". Qualquer pequeno passo no sentido de desvelar os pontos obscuros do hiato 1964-1985 causa um alvoroço desmedido entre as Forças Armadas. Até quando?

Mas, mesmo depois de reestabelecida a democracia (obviamente, esqueçamos que não houve ruptura, que logo depois tivemos o Sarney, o Collor...), muitas pessoas continuam tendo "mortes insepultas". Em nosso tempo de barbárie, a maioria dessas vítimas não pertence à classe média, não participa de movimentos sociais, nem mesmo procura questionar o sistema político e econômico. Não são "subversivos" ou "terroristas" (nem possuem nenhum outro epíteto utilizado para mascarar a racionalização da morte e da tortura). A justificativa para esse destino? Talvez terem marcado na pele e no olhar alguns punhados de séculos de descaso e omissão. São, aos olhos dos outros, seres  "invisíveis".

As Mães de Acarí, assim como as da Plaza de Mayo, clamam ainda hoje por justiça. Por explicações. Quantas outras precisarão trilhar esses mesmos caminhos?  Procurariam elas reparações? Ou buscam por perdão? Porém, “pode-se perdoar quem não confessa seu erro? Quem concede o perdão precisa ter sido ofendido? É possível perdoar a si próprio?” (Paul Ricoeur, "A memória, a história e o esquecimento").

"As vítimas não encontradas somos todos nós
Os que não demos adeus e nem rezamos
Nos cemitérios clandestinos da justiça"

(a qualidade não está muito boa, mas vale a pena dar uma conferida).

O fator Deus (José Saramago)


Algures na Índia. Uma fila de peças de artilharia em posição. Atado à boca de cada uma delas há um homem. No primeiro plano da fotografia um oficial britânico ergue a espada e vai dar ordem de fogo. Não dispomos de imagens do efeito dos disparos, mas até a mais obtusa das imaginações poderá “ver” cabeças e troncos dispersos pelo campo de tiro, restos sanguinolentos, vísceras, membros amputados. Os homens eram rebeldes. Algures em Angola. Dois soldados portugueses levantam pelos braços um negro que talvez não esteja morto, outro soldado empunha um machete e prepara-se para lhe separar a cabeça do corpo. Esta é a primeira fotografia. Na segunda, desta vez há uma segunda fotografia, a cabeça já foi cortada, está espetada num pau, e os soldados riem. O negro era um guerrilheiro. Algures em Israel. Enquanto alguns soldados israelitas imobilizam um palestino, outro militar parte-lhe à martelada os ossos da mão direita. O palestino tinha atirado pedras. Estados Unidos da América do Norte, cidade de Nova York. Dois aviões comerciais norte-americanos, seqüestrados por terroristas relacionados com o integrismo islâmico lançam-se contra as torres do World Trade Center e deitam-nas abaixo. Pelo mesmo processo um terceiro avião causa danos enormes no edifício do Pentágono, sede do poder bélico dos States. Os mortos, soterrados nos escombros, reduzidos a migalhas, volatilizados, contam-se por milhares.

As fotografias da Índia, de Angola e de Israel atiram-nos com o horror à cara, as vítimas são-nos mostradas no próprio instante da tortura, da agônica expectativa, da morte ignóbil. Em Nova York tudo pareceu irreal ao princípio, episódio repetido e sem novidade de mais uma catástrofe cinematográfica, realmente empolgante pelo grau de ilusão conseguido pelo engenheiro de efeitos especiais, mais limpo de estertores, de jorros de sangue, de carnes esmagadas, de ossos triturados, de merda. O horror, agachado como um animal imundo, esperou que saíssemos da estupefação para nos saltar à garganta. O horror disse pela primeira vez “aqui estou” quando aquelas pessoas saltaram para o vazio como se tivessem acabado de escolher uma morte que fosse sua. Agora o horror aparecerá a cada instante ao remover-se uma pedra, um pedaço de parede, uma chapa de alumínio retorcida, e será uma cabeça irreconhecível, um braço, uma perna, um abdômen desfeito, um tórax espalmado. Mas até mesmo isto é repetitivo e monótono, de certo modo já conhecido pelas imagens que nos chegaram daquele Ruanda-de-um-milhãode-mortos, daquele Vietnã cozido a napalme, daquelas execuções em estádios cheios de gente, daqueles linchamentos e espancamentos daqueles soldados iraquianos sepultados vivos debaixo de toneladas de areia, daquelas bombas atômicas que arrasaram e calcinaram Hiroshima e Nagasaki, daqueles crematórios nazistas a vomitar cinzas, daqueles caminhões a despejar cadáveres como se de lixo se tratasse. De algo sempre haveremos de morrer, mas já se perdeu a conta aos seres humanos mortos das piores maneiras que seres humanos foram capazes de inventar. Uma delas, a mais criminosa, a mais absurda, a que mais ofende a simples razão, é aquela que, desde o princípio dos tempos e das civilizações, tem mandado matar em nome de Deus. Já foi dito que as religiões, todas elas, sem exceção, nunca serviram para aproximar e congraçar os homens, que, pelo contrário, foram e continuam a ser causa de sofrimentos inenarráveis, de morticínios, de monstruosas violências físicas e espirituais que constituem um dos mais tenebrosos capítulos da miserável história humana. Ao menos em sinal de respeito pela vida, devíamos ter a coragem de proclamar em todas as circunstâncias esta verdade evidente e demonstrável, mas a maioria dos crentes de qualquer religião não só fingem ignorá-lo, como se levantam iracundos e intolerantes contra aqueles para quem Deus não é mais que um nome, o nome que, por medo de morrer, lhe pusemos um dia e que viria a travar-nos o passo para uma humanização real. Em troca prometeram-nos paraísos e ameaçaram-nos com infernos, tão falsos uns como os outros, insultos descarados a uma inteligência e a um sentido comum que tanto trabalho nos deram a criar. Disse Nietzsche que tudo seria permitido se Deus não existisse, e eu respondo que precisamente por causa e em nome de Deus é que se tem permitido e justificado tudo, principalmente o pior, principalmente o mais horrendo e cruel. Durante séculos a Inquisição foi, ela também, como hoje os talebanes, uma organização terrorista que se dedicou a interpretar perversamente textos sagrados que deveriam merecer o respeito de quem neles dizia crer, um monstruoso conúbio pactuado entre a religião e o Estado contra a liberdade de consciência e contra o mais humano dos direitos: o direito a dizer não, o direito à heresia, o direito a escolher outra coisa, que isso só a palavra heresia significa.

E, contudo, Deus está inocente. Inocente como algo que não existe, que não existiu nem existirá nunca, inocente de haver criado um universo inteiro para colocar nele seres capazes de cometer os maiores crimes para logo virem justificar-se dizendo que são celebrações do seu poder e da sua glória, enquanto os mortos se vão acumulando, estes das torres gêmeas de Nova York, e todos os outros que, em nome de um Deus tornado assassino pela vontade e pela ação dos homens, cobriram e teimam em cobrir de terror e sangue as páginas da história. Os deuses, acho eu, só existem no cérebro humano, prosperam ou definham dentro do mesmo universo que os inventou, mas o “fator deus”, esse, está presente na vida como se efetivamente fosse o dono e o senhor dela. Não é um Deus, mas o “fator Deus” o que se exibe nas notas de dólar e se mostra nos cartazes que pedem para a América (a dos Estados Unidos, e não a outra...) a bênção divina. E foi no “fator Deus” em que o Deus islâmico se transformou, que atirou contra as torres do World Trade Center os aviões da revolta contra os desprezos e da vingança contra as humilhações. Dir-se-á que um Deus andou a semear ventos e que outro Deus responde agora com tempestades. É possível, é mesmo certo. Mas não foram eles, pobres Deuses sem culpa, foi o “fator Deus”, esse que é terrivelmente igual em todos os seres humanos onde quer que estejam e seja qual for a religião que professem, esse que tem intoxicado o pensamento e aberto as portas às intolerâncias mais sórdidas, esse que não respeita senão aquilo em que manda crer, esse que depois de presumir ter feito da besta um homem acabou por fazer do homem uma besta.

Ao leitor crente (de qualquer crença...) que tenha conseguido suportar a repugnância que estas palavras provavelmente lhe inspiraram, não peço que se passe ao ateísmo de quem as escreveu. Simplesmente lhe rogo que compreenda, pelo sentimento de não poder ser pela razão, que, se há Deus, há só um Deus, e que, na sua relação com ele, o que menos importa é o nome que lhe ensinaram a dar. E que desconfie do “fator Deus”. Não faltam ao espírito humano inimigos, mas esse é um dos mais pertinazes e corrosivos. Como ficou demonstrado e desgraçadamente continuará a demonstrar-se.

 José Saramago (Folha de São Paulo, 19/09/2001)

quinta-feira, 11 de março de 2010

La memoria

 

"La memoria despierta 
para herir a los pueblos 
dormidos que no la 
dejan vivir libre
como el viento"

(La memoria - Leon Gieco)

Buscando a gênese da exclusão: marcas de uma infância marcada pela miséria

"[...] Aqueles meninos e meninas não brotaram nos campos nem caíram do céu, embora muitos deles vivam num verdadeiro inferno"*

Na próxima segunda-feira, inicio minhas andanças pelo Mestrado em História Social da UFRGS. Muitos desafios estão por vir: desde a mudança de cidade, passando pelas novas exigências teóricas (que, com certeza, serão imensas), culminando com a grande tarefa de escrever um trabalho histórico sobre uma realidade recente e dolorosa de Caxias do Sul. E, o pior: vai ser um trabalho pioneiro, já que nada sobre a história das políticas públicas de correção/contenção/controle/vigilância sobre a infância e a juventude caxienses foi sistematizado até agora.

Falar de infância e juventude sob a tutela do Estado é falar, sem mais rodeios, sobre uma infância e uma juventude destituída de sua cidadania e de seus direitos mais básicos. É falar, também, em séculos de uma política meramente caritativa, com grandes vínculos com a Igreja (sobretudo a católica). E, também, é falar de um período ainda muito doloroso para o nosso país: foi durante a ditadura civil-militar de 1964-1985 que as políticas assistenciais tiveram uma remodelação extremamente autoritária. Quem não lembra da sigla FEBEM? Qual a nossa primeira sensação ao ouvir essas cinco letras juntas?

Como a autora citada acima coloca, a presença das crianças é normal, em qualquer sociedade. A presença do menino de rua, do menor abandonado, do jovem infrator não: ela é socialmente constituída. Ela é fruto da profunda desigualdade histórica, fundada em séculos de exploração e escravidão. Fruto de uma cidadania ainda negada. São o retrato nu, cru e demasiadamente humano de uma concentração de renda absurda.

Caxias do Sul também teve seu "Massacre da Candelária". Também teve seus Esquadrões da Morte, constituídos por pessoas ligadas ao poder público. Também teve "suicídios" de menores em celas da Penitenciária Industrial. Teve muros altos, cercas e privação de liberdade para jovens orfãos e abandonados.

É para poder falar de um pouco de tudo isto que vou me empenhar ao máximo durante os dois próximos anos. A História nunca consegue ser silenciada por muito tempo.

*TEVES, Nilda. Prefácio. In: VARGAS, Angelo L. S. As sementes da marginalidade. Uma análise histórica e bioecológica dos meninos de rua. Rio de Janeiro: Forense, 2002, p. VI

quarta-feira, 10 de março de 2010

Em meio às memórias, revivendo as cirandas da vida

Como é engraçado mexer com fotografias. Elas guardam em si mais do que memórias: guardam caminhos para nos fazer reviver sensações, pensamentos, descobertas. Nos fazem nostálgicos.

Montar o vídeo para a formatura do dia 09 (um daqueles que fazem as mães chorarem, os pais ficarem com os olhos mareados, e as tias solteironas pensarem "essa é a minha sobrinha linda"), foi como me sentir transportada diretamente para 2004, um dos anos mais decisivos da vida dessa singela pessoa que vos escreve. Mas não só da minha: a oportunidade de fazer uma festa junto com algumas das pessoas mais importantes desses seis anos enriquece cada momento despendido com a escolha das fotografias, a edição das imegens, a organização do vídeo.

Nesses momentos a gente percebe o quanto é importante termos por perto pessoas que nos apóiam, incentivam, vibram com nossas vitórias e ajudam a segurar a barra quando as coisas não vão como o esperado.

Abaixo, uma das melodias escolhidas para embalar algumas das imagens que marcaram os tempos mais frutíferos e verdadeiros da minha - e da nossa - trajetória.

Ciranda - Márcio Faraco

Se tento correr o tempo pára
Se páro pra ver o mundo anda
Ele vem bater na minha cara
A vida é sempre essa ciranda

Se a noite me traz uma tristeza
O dia vem cheio de alegria
O que falo agora com certeza
Há pouco não sei se eu diria

Eu quero gritar ninguém me escuta
Está tudo preso na garganta
Às vezes me cansa tanta luta
E é pra não chorar que a gente canta

A gente canta
A gente canta

Eu vi uma luz no fim do túnel
Enchi de esperança o coração
A luz que lá estava foi chegando
Era um trem carregado de ilusão

Andando só na corda bamba
Não temo o futuro da nação
A gente que sempre dançou samba
Enfrenta qualquer divisão

A gente canta
A gente canta

Pedro Juan Gutierrez: um olhar complexo sobre Cuba

Repostando a resenha de 2008 sobre a obra "Trilogia suja de Havana", de Pedro Juan Gutierrez.

Ler a obra de Pedro Juan Gutierrez desavisadamente pode configurar um problema. Desde a capa da edição brasileira da Companhia das Letras, que mostra um homem abordando duas prováveis prostitutas do interior de um carro, até as infindáveis descrições de cenas selvagens de sexo, violência, miséria, sujeira e barbárie podem fazem corar, ou provocar náuseas, no mais impudico dos leitores. Gutierrez descreve nesta obra uma Cuba que entra na década de 1990 desolada, faminta, convivendo irremediavelmente com a miséria total, que degrada homens e mulheres para muito além de seus aspectos físicos e biológicos.

Pedro Juan Gutierrez nasceu em 27 de janeiro de 1950 em Matanzas, Cuba. Segundo alguns, essa cidade era a “Atenas de Cuba”, dado o fato de ali ter se originado ritmos musicais como danzón, a rumba e o guaguancó. Ali se situavam também grandes propriedades açucareiras. Sua maior rival econômica à época era Havana. Ao longo de sua vida, Gutierrez desempenhou diversas funções profissionais: vendedor de sorvete e de jornal, soldado, instrutor de natação e caiaque, cortador de cana-de-açúcar, técnico em construção, dirigente sindical, desenhista técnico, locutor de rádio e, durante 26 anos, jornalista. É pintor, escultor e autor de vários livros de prosa e poesia, sendo que esta obra aqui analisada é a sua primeira aventura com a prosa. Alguns de seus outros livros nesta mesma modalidade: “O Rei de Havana” (1999), “Animal tropical” (2000), “O insaciável homem-aranha” (2002), “Carne de cão” (2003), “Nosso GG em Havana” (2004), “O ninho da serpente: Memórias do filho do sorveteiro” (2005), “Coração mestiço” (2007). Vive atualmente em Havana, dedicando-se exclusivamente à literatura e à pintura.

O fato de Gutierrez, à época da Revolução Cubana (1959), ter tido sua fábrica de sorvetes nacionalizada pelo governo e, em 1966, ter sido recrutado para o serviço militar obrigatório, foram fatos que seguramente influenciaram muito em seu posicionamento político. Nos anos 70 dedicou-se à carreira jornalística, trabalhando em agências de noticias, revistas, rádios e jornais. Durante a década de 80, efetuou inúmeras visitas à União Soviética, à Alemanha Oriental, às favelas brasileiras, à fronteira entre México e Estados Unidos, ainda como jornalista, tendo recebido prêmios nacionais por suas reportagens. Curiosamente, segundo fontes que falam de sua biografia, acabou sua carreira jornalística quando do sucesso do livro “Trilogia suja de Havana” na Espanha, onde foi publicado pela primeira vez , tendo sido demitido sem maiores explicações da empresa cubana à quem prestava serviços...

A obra aqui analisada, dividida em três partes como sugere o seu próprio titulo, foi publicada em 1998 (em diversos paises europeus e latino-americanos – inclusive no Brasil - mas não em Cuba). É dividida temporalmente, sugerindo a época em que o autor registrou os relatos (entre 1990 e 1997). Uma pergunta fica: até que ponto esta obra se configura em uma autobiografia, e onde começa a ficção? É difícil precisar, dada a riqueza de detalhes com que o cotidiano cubano é narrado, as vezes entrecortado por relatos quase jornalísticos, em que pese também a maior parte do livro estar escrita em 1ª pessoa (a pessoa de Pedro Juan Gutierrez).

Não existe uma narrativa linear ao longo do livro, apesar de algumas histórias serem retomadas ao longo dos capítulos. O tom sufocante, escuro e sujo dos episódios narrados no livro nos fazem adentrar na atmosfera de uma Cuba solapada pela crise econômica e miséria perene de sua população. A afirmação que Gutierrez cita ter sido proferida por um amigo, que sentenciava que “...o único jeito de viver aqui é louco, bêbado ou dormindo...” (p. 35) dão o tom da narrativa. Os cortiços imundos, semi-destruidos, com banheiros coletivos usados por muitas pessoas (incontáveis, segundo o autor, pois todo dia há gente nova entrando e saindo...), a falta de água, comida e energia elétrica são o pano de fundo da história. Entre muito sexo, amores, palavrões, drogas e rum, o autor tece uma narrativa vigorosa, que penetra no âmago da vida cubana das ruas, da miscigenação, da falta de liberdade de imprensa, da religiosidade afro-descendente, da prostituição, do contraste entre a natureza caribenha exuberante e a realidade sórdida.

A obra de Gutierrez anda à passos dados com a história de Cuba. Aliás, na contra-mão da história cubana, demonstrando o fim do sonho revolucionário, distante dos heróis idílicos de Sierra Maestra, tão caros aos historiadores. Sobre seu tempo como soldado do exército dos primeiros anos de Fidel Castro, o autor relembra como passou anos imaginando-se superior ao fazer parte daquelas transformações: “(...) Pois bem, passei anos assim. Triunfalmente. Com toda a verdade em uma mão e a bandeira vermelha na outra. (...)” (p. 96).

Ao longo do texto, o autor deixa transparecer como a Revolução ainda povoa o imaginário e o cotidiano cubano, paradoxalmente. Segue uma passagem que pode servir de exemplo:
Através da janela eu via no edifício do lado a mulher velha, grisalha, talvez um pouco abandonada e suja. Sentada numa cadeira de balanço, balançava-se furiosamente e cantava sem pausas e misturando tudo, estrofes da Internacional, do Hino Nacional, da Marcha 26 de Julho, do Hino dos Alfabetizadores, do das milícias, de novo da Internacional, depois repetia tudo. As vezes se calava um pouco, como se quisesse tomar fôlego, e perguntava: ‘Quem é o último? Não tem último nessa fila? Quem é o último para pegar o pão? (...)’. E começava de novo: ‘Não haverá César, nem burguês, nem Deus’ (...) Fazia meia hora que eu estava sentado ali, escutando a louca. Primeiro, me incomodou. Depois parei de ouvir. Tinha me adaptado à paranóia dela (pág 103)
O contexto socioeconômico cubano, narrado por Gutierrez, é o da crise econômica profunda, onde falta tudo: desde matérias-primas até o item mais essencial para a subsistência da população. Cadernetas de abastecimento? Neste momento, não passam de lembranças distantes. Em sua luta pela sobrevivência, Gutierrez conta histórias sobre o comércio clandestino de víveres (que é punido cotidianamente pela policia), o tráfico de drogas, a precariedade dos serviços de saúde, as casas de jogos, a prostituição ligada diretamente ao turismo – tudo se torna subterfúgio à miséria... Em um dos capítulos, narra a sua prisão após ser abordado no malecón demonstrando sua virilidade para uma “ingênua” senhora estrangeira. O cárcere, desumano como em qualquer bom pais capitalista, não se mostra tão diverso a realidade fora das grades.

Sobre a crise econômica que Cuba enfrentou nos anos 90, o autor descreve que:
(...) A crise era violenta e penetrava até o menor cantinho da alma da gente. A fome e a miséria são como um iceberg: a parte mais importante não se vê a olho nu. ‘Mas é preciso ir aos poucos, companheiro, sem perder o controle. Pouco a pouco nos inserimos nesse mundo complexo e na economia de mercado, mas sem abandonar os princípios, etc’ Ah, caralho! Os inesquecíveis anos 90! (...) (p. 115).

(...) Cuba já estava entrando na fome mais séria de sua história. Creio que foi em 1991. Ninguém imaginava toda a crise e toda a fome que viria depois. Nem eu. Só estava preocupado com a minha claustrofobia galopante e com comer, porque naquele mesmo ano, em poucos meses, havia emagrecido dezoito quilos. Evidentemente por falta de comida (p. 32).
Denota-se em diversas passagens o desejo comum de sair de Cuba, rumo às “terras da prosperidade”, como Miami, nos Estados Unidos, ali do outro lado da costa... Muitos são as narrativas sobre tentativas de fugas que acabaram em prisões, ou mesmo em acidentes no mar e ataques de tubarões, etc. A idéia de que Cuba estaria adentrando finalmente ao “mundo capitalista” também perpassa a narrativa, ainda que ao mesmo tempo a “encenação política” tente despistar a miséria. Por isso, resolvi destacar (entre outros trechos da obra) um que sintetiza este sentimento recorrente, como pode ser evidenciado através de uma metáfora utilizada pelo autor:
Saíamos todos das jaulas e começávamos a lutar na selva. Esse era o assunto. Saiamos atrofiados das jaulas. Não tínhamos nem idéia de como era a batalha na selva. Mas era preciso enfrentá-la. Ficamos trinta e cinco anos nas jaulas do zôo. Nos davam alguma comidinha e algum remédio, mas nem idéia de como era o todo o resto além das grades. E de repente era preciso saltar para a selva. Com o cérebro adormecido e os músculos frouxos e débeis. Só os melhores podiam competir pela vida na selva. Eu estava tentando. Fazendo força. Muita força (p. 137).
Esta “batalha na selva” estaria sintetizando o irremediável destino cubano após a desintegração da U.R.S.S. e a queda do Muro de Berlim? A “revolução em um só país” de Fidel Castro finalmente estaria mostrando ares de derrota para seus detratores mais ferozes? Ou seria fruto do bloqueio econômico feroz perpetrado pelos Estados Unidos , como querem fazer crer os fidelistas?

Como citado no comentário de abertura da obra, de José Rubens Siqueira, dentre os personagens do livro, “ninguém acusa o sistema, e ninguém o defende”. É um livro ambíguo. Polêmico. Nauseante. Mas também, indispensável para os que se propõe a estudar a complexa realidade cubana contemporânea, tendo como interlocutor um sujeito como Gutierrez: um “macho tropical”, nascido em Cuba, que participou ativamente dos momentos mais importantes da recente história de seu país, e que nos brinda com suas inquietações, e angustias, para além do que postulam os simples críticos do regime, ou o que vendem os relatos paradisíacos em que crêem os turistas.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Mais um retorno.

E, mais uma vez, retorno à escrever linhas mal traçadas por aqui. Agora, com outros planos e projetos na cabeça. Indo em busca de um sonho, deparando-me com a realidade inexorável que me garante que muita coisa vai mudar - para o bem ou para o mal. Obviamente aposto na primeira alternativa.

Desde a última postagem, muita coisa mudou. Passei a trabalhar com o que eu gosto, com pessoas que eu gosto e que apostam em mim. E isso faz - e efetivamente fez - toda a diferença.

Bem, passo aqui de forma ligeira, para inaugurar o que pode vir a ser um local para contar sobre as novas experiências, os desafios e as loucuras que virão pela frente.

Vibrações muito positivas, sempre!

segunda-feira, 16 de outubro de 2006

Sabe quando...?


Sabe quando alguém traduz exatamente o que vc aspira, espera, sente em poucas e precisas palavras?


Sabe quando alguém coloca em letras e símbolos tudo o que te faz exasperar, te indiguinar, mas que, assim como você, guarda uma esperança de dias melhores?


Bom, melhor do que discursar sobre essa sensação, é deixá-los senti-la...
Segue abaixo, para quem interessar possa...

O Direito de Sonhar


Sonhar não faz parte dos trinta direitos humanos que as Nações Unidas proclamaram no final de 1948. Mas, se não fosse por causa do direito de sonhar e pela água que dele jorra, a maior parte dos direitos morreria de sede.
Deliremos, pois, por um instante. O mundo, que hoje está de pernas para o ar, vai ter de novo os pés no chão.

Nas ruas e avenidas, carros vão ser atropelados por cachorros. 

O ar será puro, sem o veneno dos canos de descarga, e vai existir apenas a contaminação que emana dos medos humanos e das humanas paixões. 

O povo não será guiado pelos carros, nem programado pelo computador, nem comprado pelo supermercado, nem visto pela TV. 

A TV vai deixar de ser o mais importante membro da família, para ser tratada como um ferro de passar ou uma máquina de lavar roupas. 

Vamos trabalhar para viver, em vez de viver para trabalhar. 

Em nenhum país do mundo os jovens vão ser presos por contestar o serviço militar. Serão encarcerados apenas os quiserem se alistar. 

Os economistas não chamarão de nível de vida o nível de consumo, nem de qualidade de vida a quantidade de coisas. 

Os cozinheiros não vão mais acreditar que as lagostas gostam de ser servidas vivas. 

Os historiadores não vão mais acreditar que os países gostem de ser invadidos. 

Os políticos não vão mais acreditar que os pobres gostem de encher a barriga de promessas. 

O mundo não vai estar mais em guerra contra os pobres, mas contra a pobreza. E a indústria militar não vai ter outra saída senão declarar falência, para sempre. 

Ninguém vai morrer de fome, porque não haverá ninguém morrendo de indigestão. 

Os meninos de rua não vão ser tratados como se fossem lixo, porque não vão existir meninos de rua. 

Os meninos ricos não vão ser tratados como se fossem dinheiro, porque não vão existir meninos ricos. 

A educação não vai ser um privilégio de quem pode pagar por ela. 

A polícia não vai ser a maldição de quem não pode comprá-la. 

Justiça e liberdade, gêmeas siamesas condenadas a viver separadas, vão estar de novo unidas, bem juntinhas, ombro a ombro. 

Uma mulher - negra - vai ser presidente do Brasil, e outra - negra - vai ser presidente dos Estados Unidos. Uma mulher indígena vai governar a Guatemala e outra, o Peru. 

Na Argentina, as loucas da Praça de Maio vão virar exemplo de sanidade mental, porque se negaram a esquecer, em tempos de amnésia obrigatória.

A Santa Madre Igreja vai corrigir alguns erros das Tábuas de Moisés. O sexto mandamento vai ordenar: "Festejarás o corpo". E o nono, que desconfia do desejo, vai declará-lo sacro. 

A Igreja vai ditar ainda um décimo-primeiro mandamento, do qual o Senhor se esqueceu: "Amarás a natureza, da qual fazes parte". Todos os penitentes vão virar celebrantes, e não vai haver noite que não seja vivida como se fosse a última, nem dia que não seja vivido como se fosse o primeiro. "

Eduardo Galeano